Prêmio PROARTE - 2009 SEC - Secretaria de Cultura do Amazonas.
Participação no 6º FTA - Festival de Teatro da Amazônia, recebendo os prêmios;
Melhor Cenografia
Melhor Música
Melhor Direção
Melhor Atriz Coadjuvante - Ednelza Sahdo
Melhor Atriz - Vanessa Pimentel
e Melhor Espetáculo da 6º edição do FTA.
MEMÓRIAS DO SANGUE
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| Monik Pétala - Atriz - Personagem LUA. |
É preciso sempre voltar a Lorca. Nos tempos de solidão desenfreada, numa multidão cada vez mais sem objetivos dignificantes, urge um retorno ao amor primordial entre os seres, o regresso de uma poesia pulsante ao nosso Teatro. Eis a urgência da dramaturgia de Federico García Lorca aos palcos de todo o mundo. Sua mensagem transpassa tempos e situações, pois é feita do amálgama dos eternos conflitos que habitam os corações vorazes, da inquietude dos artistas, daquela ânsia de derrotar o touro incontrolável que habita a cada um de nós. “Sobre teu corpo, que há dez anos se vem transfundindo em cravos de rubra cor espanhola, aqui estou para depositar vergonha e lágrimas”. A verve poética do dramaturgo que fez da Espanha sua cruzada medieval, levando a cruz da arte da liberdade e a espada na bainha da calça, e que nunca usou, pois Lorca era feito de uma substancia platônica que já não existe mais neste planeta: a paixão pelo outro, revigorando sua arte pela circunstancia emergencial de doar-se feito um mártir que busca um horizonte onde o amor triunfaria. Este amor porém vem acompanhado de uma certa melancolia profética, onde o dramaturgo, tal qual as ciganas que prenunciam o futuro, antevia sua morte numa Espanha calejada pelo sangue dos justos. Lorca era um deles. “Vergonha de há tanto tempo viveres, se morte é vida, sob o chão onde esporas tinem a calcam a mais fina grama e o pensamento mais fino de amor, de justiça e paz”. Bodas de Sangue, na visão do jovem e talentoso artista Douglas Rodrigues, é mais um mosaico de emoções fortes e de imagens simbólicas que esfaqueiam a todos os seres sensíveis, e aqui a sensibilidade é natural como um corpo que voa sobre nossa mente, como se martelasse numa arena de touros: “agora chegou a tua hora”. Hora crucial onde a Arte&Fato descortina uma muralha de personagens já cristalizadas no imaginário do homem-palco, ou seja, o que transpira Teatro por todos os poros. Há de notar-se que estamos sem novidade nesta trajetória de Douglas Rodrigues, pois o rigor e a pulsação vibrante de suas idéias cênicas são uma “trademark” indelével de seu Teatro, um Teatro de risco, sem concessões. O encontro de uma forte dramaturgia com uma jovialidade inesgotável faz a alquimia perfeita dos que almejam a pedra encantada, num Teatro que não se permite existir sem desafiar os incautos. Para ser uma Boda de Sangue legítima a transfusão deve ser de risco, o jorro deste líquido carmesim deve despejar todas as máscaras que eclipsam o homem e seus terríveis fantasmas: o ódio e o preconceito.


Lorca estava atento ao poder da arte na transformação da sociedade, e acredito que uma companhia de Teatro, ao optar por esta montagem, traz uma parcela de revolução já latente em cada ensaio, em cada botão de figurino, em cada foco de luz que adentra no palco de Bodas de Sangue. “Lágrimas de noturno orvalho, não de mágoa desiludida, lágrimas que tão-só destilam desejo de ânsia e certeza de que o dia amanhecerá. (Amanhecerá). As veias de cada integrante deste elenco faz circular um sangue feito de clamores pelo que de melhor existe na arte: a ultrapassagem do ser para outro ser, o espetáculo que permanece na memória de um espectador ávido por uma verdade de cena, onde a obra está acima de débeis egoísmos, e onde o brilho caberá ao poeta granadino, autor da Trilogia do Sangue, onde também habitam no mesmo universo trágico de Bodas de Sangue as peças Yerma e A Casa de Bernarda Alba. A Espanha que conhecemos hoje deve muito a Lorca, este espírito espanhol, senão criação de Lorca, é fruto de seu sucesso mundial como pensador, poeta, revolucionário da estética teatral, acima de tudo, de um homem de Teatro além das convenções canhestras de seu tempo, onde a ditadura de Franco acabou por triunfar. O triunfo de Franco representou a morte do homem Lorca, mas no outro viés, a ressurreição de sua estética poética para o infinito do sempre, o “encontro do céu com o mar”, como disse Arthur Rimbaud, outro grande poeta e visionário. “Esse claro dia espanhol, composto na treva de hoje, sobre teu túmulo há de abrir-se, mostrando gloriosamente, ao canto multiplicado de guitarra, gitano e galo, que para sempre viverão os poetas martirizados”. Uma arte feita de uma coragem extrema se descortina agora para nós. O fato inconteste é que ao passarem estes personagens sobre suas retinas, um espelho mágico, onde o passado e o futuro coabitam, o conduzirão para uma estrada de sensações memoráveis, onde o Teatro torna-se um vetor da tua transcendência. Com Bodas de Sangue tua transfusão estará concluída. Resta saber que destino teu corpo e mente darão a este sangue produzido há mais de sessenta anos atrás. O artefato teatral de Lorca que a Arte&Fato revigora com sua montagem.

Post escriptum- Foram inseridos no corpo deste texto, em forma de homenagem, o poema “A Federico García Lorca”, de outro poeta igualmente genial, Carlos Drummond de Andrade.
Manaus, 9 de agosto de 2009.
Jorge Bandeira